AMOTINADOS

23.4.19

Fantasma de mim mesmo


Dor que tira a calma, embaraça a alma, desfaz a trama, restaura o trauma. Envenena a água, destrói a flora, aniquila a fauna e a ferida salga. Revigora a chaga, arrebenta a válvula, invade o quarto, a copa e a sala. A verdade clara, porrada na cara até que a máscara caia, a fidelidade traia e o ar se esvaia. É morte à bala, lança que empala e a ruína embala. O sol me flagra escalando a escada. Mulheres de saias, solos de guitarras e o murmúrio insidioso das vaias. Incas, Astecas e Maias. A noite chega com a velocidade de um impala, arrastando a cauda, exibindo as patas, encobrindo a praia, envolvendo montanhas, rios, florestas e matas. A alegria atirada à vala. A dispensa farta, no coração a falta. Desfaço as malas e a angústia no peito cala.

17.1.19

Sentimental


Um amor assim espanta: poesia, aroma de fruta, silueta de planta. Amor anarquista: conquista, desgoverna e liberta. Aconchego de lençol, almofada, coberta. Um amor musical assim: Tim, Clapton, Marvin Gaye, Jobim. Amor meio literário: Scott e Zelda, Sartre e Simone, Jorge e Zélia. Um amor de novela: improvável, açucarado e piegas. Amor de papel: Nacib e Gabriela, Capitu e Bentinho, Pedro e Ana Terra. Amor mandala: geometria que embaraça, aproxima e embala. (D.Álvares)

30.9.18

À menina que nada


Creia: não resisto ao teu canto de sereia, encantos de menina que nada, chamando para a sesta, evocando para a vida, convidando para a ceia. O marujo primeiro a lançar-se ao mar na ânsia de querer-te, te ter e te amar. Um barco à deriva em teus ombros largos, boca macia, pernas grossas que me enroscam numa deleitosa teia, descompassando o coração, extraindo o melhor sorriso, arrancando dos meus pés o contato com o chão. (D.Álvares)

11.7.18

A lua que anda


Pressentes? O meu mais perfeito presente é a tua presença. Reparas? Rodopio ausente, carente de tua querência. Compreendes? Entoo cantos e contos qdo tua luz clareia os corpos celestes. Lua, teus olhos de satélite afastam as sombras e inundam de magias e presságios o meu derredor. (D.Álvares)